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#CONSCIÊNCIANEGRA | 09/11/2023
12º Seminário Internacional de Bibliotecas aborda temática do antirracismo

O 12º Seminário Internacional de Bibliotecas foi realizado nessa quinta-feira, no auditório do SindBancários, na Capital. O evento teve como temática “Bibliotecas e Antirracismo” e integrou a programação da 69ª Feira do Livro de Porto Alegre. A atividade contou com transmissão online no canal da Universidade de Caxias do Sul (UCS).

Na abertura do evento, a presidente do Conselho Regional de Biblioteconomia da 10ª Região (CRB-10), Gislene Sapata Rodrigues, deu as boas-vindas aos presentes, assim como o diretor de Diversidade e Combate ao Racismo do SindBancários, Sandro Rodrigues. O secretário de Educação da Capital, José Paulo da Rosa, prestigiou o início da atividade.

O diretor do Sindicato agradeceu o empenho dos organizadores, incluindo a bibliotecária do SindBancários, Francine Conde, responsável pelo espaço da entidade. Ele destacou a importância do debate sobre antirracismo não apenas no mês da Consciência Negra, mas durante todo o ano. 

“A gente quer construir um acervo significativo de obras, e contamos com a ajuda de vocês pra isso, pra levar pras escolas e fazer um clube de livros antirracistas. Com isso, será possível promover debates e alterar algumas questões dentro das escolas que são de extrema importância. Não só sobre a temática do antirracismo, mas também sobre a causa LGBTQIAPN+ e questões de gênero”, afirmou.

Na parte da manhã ocorreram três painéis, além da etapa de compartilhamento de ideias, para apresentação de projetos inscritos por participantes do Seminário. Houve ainda sorteios de brindes entre os participantes.

O primeiro painel foi “Literatura Antirracista” com a escritora, pedagoga e contadora de histórias Sonia Rosa, e mediação da presidente do CRB-10. A escritora contou sobre sua trajetória na escrita, que culminou com a criação do conceito de literatura negro afetiva. Para ela, é necessário reconhecer que ocorreram avanços na sociedade no sentido de entender o privilégio branco e abrir espaço para que pessoas negras ocupem espaços de poder.

A presidente do CRB-10 comentou que ainda sente um grande silenciamento, em especial nos locais em que alguns entendem que pessoas negras não deveriam estar. “Tu está fazendo faxina? Não, eu faço mestrado! Nesses lugares em que as pessoas pretas ascendem, a gente ainda precisa lutar muito, provar muito quem a gente é, o que a gente faz, e isso às vezes é bastante cansativo. É importante que todos possamos refletir sobre o quanto o racismo não dá trégua. Ele está ali, em todos os lugares, nas micro violências. Então temos que pensar em como trazer a literatura num horizonte de transformação, em trazer corpos negros como espaços de afeto e de cuidado”, salientou. 

Sonia entende que “contar histórias é colocar o amor em palavras” e, para quem é negro, escrever em primeira pessoa é algo de extremo valor, já que sua história sempre foi contada por outros, tornando-os objetos. “A literatura traz a vida e não pode trazer só um tipo de vida, tem que contar sobre a vida de todo mundo”, reforçou.

A escritora defende que bibliotecários têm um relevante papel como educadores e formadores de mentes, contribuindo para decolonizar as práticas dentro das bibliotecas, bem como nas salas de aula e na vida. Ela comentou ainda sobre as mudanças ocorridas a partir da Lei 10.639/2003, que torna obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas do país. “O mercado editorial passou a ter muitas obras com personagens negros, mas é importante ler as histórias e avaliar se são boas, se não contêm erros ou aberrações”, apontou.

O segundo painel foi “Para vernos mejor. Enfoque étnico diferencial en contextos bibliotecarios y en la promoción de la lectura”, com a escritora afro-colombiana, ativista cultural e promotora de leitura Velia Vidal Romero, e mediação de Iara Breda (Instituto Cervantes). Conforme a escritora, há muitos estereótipos sobre o povo afro latinoamericano, sendo que há uma raiz compartilhada, mas não existe uma única forma de ser afro, com relação a gosto estético, cultural, personalidade, entre outros pontos. “O maracatu, por exemplo, é de origem afro, mas pessoas brancas praticam. Isso não faz com que a dança deixe de ser afro, nem faz com que as pessoas se tornem negras por praticarem”, exemplificou.

Velia trouxe alguns conceitos que considera essenciais para promoção do debate sobre antirracismo. Ela explicou a diferença entre representatividade e reconhecimento: enquanto representatividade tem a ver com visibilidade, com pessoas negras ocupando espaços, reconhecimento é um assunto político, ligado à plena garantia de direitos. “Representatividade não é suficiente. Precisamos que seja reconhecido nas constituições dos países que há um povo, descendente de escravos, vítima de cinco séculos de exclusão, que merece reparação, ter direito à terra, à saúde, educação. Recolhimento é universal e só ocorrerá quando todos tiverem direitos garantidos”, ressaltou.

A escritora elencou dois tipos de racismo, estrutural e interpessoal, cotidiano, fruto de um sistema de crenças que entende algumas pessoas (brancas) como superiores e outras como inferiores (negras, indígenas, etc.). Mesmo com a abolição da escravatura, que no Brasil foi apenas em 1988, houve mudança nas leis, mas não no sistema de crenças, a qual todos estão submetidos. Conforme ela, a escravidão surgiu a partir do racismo, já que se considerar superior daria o direito de pessoas brancas se imporem sobre as demais.

“Racismo não é a prática excludente, não é insultar, é o sistema de crenças, a ideologia que coloca algumas pessoas em um lugar de superioridade e outras em lugar de inferioridade por conceito racial. Pode ser que eu nunca emita um gesto, uma expressão racista, mas se na minha cabeça têm mais valor as pessoas brancas, de olhos claros, ou têm menor valor os indígenas, palestinos, árabes, judeos, negros, há racismo em mim. E isso acontece com todos e todas”, comentou.

No que tange a literatura, Velia tem experiência na análise de obras afro de vários países, em especial direcionados ao público infantil. Ela comentou sobre alguns livros que, mesmo trazendo representatividade, possuem problemas como contribuir para reforçar estereótipos, animalizar pessoas negras ou ilustrar personagens sem considerar as diferentes tonalidades de pele. Dessa forma, a escritora orienta que bibliotecários sejam criteriosos ao trabalhar com mediação dessas obras, buscando identificar previamente o racismo presente em algumas. Outra questão relevante para os profissionais é estarem atentos a decisões sobre políticas públicas nas bibliotecas baseadas no racismo ou condescendentes.

O terceiro e último painel da manhã foi “Mike e as barreiras de uma nova língua como escritor”, com o escritor e poeta haitiano Mike Lorry Loudney Joseph, e mediação de Gabriela D´Andrea (Biblioteca Comunitária do Arvoredo). O escritor iniciou sua trajetória ainda no Haiti, escrevendo em francês, como uma forma de buscar lidar com situações difíceis pelas quais passou, com os terremotos ocorridos no país.

Seus pais vieram para o Brasil em 2014, em busca de melhores condições de vida, e ele seguiu no Haiti, morando com sua avó. Alguns anos depois foi a vez de Mike pisar em solo brasileiro, onde concluiu o ensino médio. Em 2019, sua avó faleceu e ele não teve como ir até o Haiti para seu enterro. Como forma de lidar com a dor, voltou a escrever poemas, dessa vez arriscando no português. Segundo ele, foi um processo complicado, no começo escrevia em francês e traduzia pra língua portuguesa. “Depois vi que na tradução mudava um pouco o sentido e passei a escrever em português, mesmo com erros. Meus professores me ajudavam, corrigiam, e com o tempo eu passei a revisar sozinho”, disse.

Mike participou de slams, recitais de poesia em espaços públicos, onde conheceu pessoas que o acolheram. Com uma escrita repleta de carga dramática, Mike começou a publicar zines em português, por uma editora indicada por seus professores de escola. Ele também se disse frequentador de bibliotecas, o que o ajuda bastante nos estudos. Mike já escreveu e publicou três livros de poesia em português. Além de escritor, ele é estudante de Direito. “Escolhi esse curso para entender como as coisas funcionam e para poder ajudar a quem precisa”, finalizou.

Premiação 

Para fechar o Seminário Internacional de Bibliotecas, houve a entrega da premiação CRB-10, aguardada com expectativa por todos os presentes. O Prêmio Atenéa Felistoffa de destaque da Instituição Colaboradora da Biblioteconomia no Rio Grande do Sul foi para a Biblioteca Pública do Estado. Quem recebeu foi Ana Maria de Souza, diretora da instituição, que chamou sua equipe para agradecer pelo troféu e por todo trabalho realizado nos últimos meses.

Para a Pessoa Colaboradora da Biblioteconomia no Rio Grande do Sul foi destinado o Prêmio Eda Elsa Werner, que ganhou as mãos da Deputada Estadual Sofia Cavedon (PT). A parlamentar agradeceu e falou da linda luta que é feita por todas bibliotecárias pelo incentivo à leitura.

E o Prêmio Zenaira Garcia Marques de Profissional de Biblioteconomia no Rio Grande do Sul foi novamente para Ana Maria de Souza. A bibliotecária, formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em 1996, é primeira diretora negra da Biblioteca Pública do RS em seus 153 anos de história. Com aplausos efusivos, o título reconhece a responsabilidade e o trabalho desenvolvido por Ana Maria na BPE.

 

Fonte: Imprensa Sindbancários (clique e veja galeria de fotos)

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